Governança não é
luxo de empresa grande nem papelada de bolsa. É o que faz a sua empresa valer
mais na venda e segura o negócio na crise entre sócios. Quem deixa a casa
bagunçada paga o desconto.
Já vi uma empresa de faturamento invejável
perder uma fatia relevante do preço na mesa de negociação, e não foi por causa
do produto, da carteira de clientes ou do mercado. Foi porque, quando o
comprador abriu o capô na due diligence, a casa estava bagunçada por dentro.
Sócios sem acordo, contabilidade que não fechava com a realidade, decisões
importantes sem nenhum registro, contratos com partes relacionadas que ninguém
sabia explicar. Cada um desses pontos virou desconto, retenção de valor ou
cláusula de risco. No fim, o dono levou para casa bem menos do que a empresa
valia, por uma razão que tinha conserto e custava barato: governança.
Existe um mito que precisa morrer.
Governança corporativa não é burocracia de companhia listada em bolsa, nem
comitê cheio de gente de terno discutindo papel. O próprio Instituto Brasileiro
de Governança Corporativa, na 6ª edição do seu Código, lançada em 2023,
redefiniu o conceito de um jeito que serve para qualquer empresa: é o sistema
de princípios, regras, estruturas e processos pelo qual a organização é
dirigida e monitorada, com vistas à geração de valor sustentável para a empresa,
para os sócios e para a sociedade. Repare na expressão geração de valor.
Governança não é enfeite nem custo de compliance, é mecanismo de criar valor, e
se apoia em cinco princípios simples de enunciar: integridade, transparência,
equidade, responsabilização e sustentabilidade.
Por
que isso aparece no preço
A lógica é mais econômica do que jurídica.
Quem coloca dinheiro num negócio, seja comprando, seja financiando, seja
entrando como sócio, sabe menos sobre a empresa do que quem está dentro dela.
Esse desnível de informação, que os economistas chamam de assimetria
informacional, é caro. Quanto mais o investidor desconfia do que não consegue
enxergar, mais risco ele embute no preço e maior o retorno que exige.
Governança boa ataca exatamente esse ponto. Transparência, conselho que de fato
monitora e regras claras entre os sócios reduzem o risco percebido, ampliam o
acesso a financiamento e baixam o custo do capital. A literatura empírica
brasileira mostra que a qualidade da governança é, no jargão técnico, value
relevant, ou seja, o mercado paga mais pela empresa bem governada. Não é teoria
bonita, é desconto que você evita.
A
empresa que mais precisa é a que menos faz
Aqui está a parte que poucos contam. Quase
toda a evidência sobre governança foi produzida estudando gigantes listadas na
bolsa, e é justamente por isso que o assunto soa distante para o dono de uma
empresa média. Quando alguém olha para fora do topo do mercado de capitais, o
quadro se inverte: um estudo com mais de quinhentas empresas registradas na
CVM, incluindo as não listadas, encontrou aderência média às boas práticas de
pouco mais de trinta e seis por cento. A empresa familiar, a de médio porte, a
fechada, que é a que mais sofre com conflito de sócio e sucessão mal feita, é a
que menos adota governança. O problema não é falta de relevância, é a ilusão de
que isso é coisa de companhia aberta.
Onde a
teoria encosta na sua realidade
Para o dono de empresa, governança deixa de
ser abstrata em três momentos muito concretos. O primeiro é a venda. Na due
diligence, o comprador sofisticado vai cobrar exatamente o que a governança
organiza, e a falta dela vira preço menor, dinheiro retido em escrow ou
earn-out amarrado a metas. O segundo é a captação. Se você quer atrair um
investidor, um fundo ou um sócio estratégico, governança é o passaporte. No
mundo das startups isso ganhou até moldura legal: o Marco Legal das Startups, a
lei complementar 182 de 2021, organizou a figura do investidor-anjo, que aporta
sem virar sócio e sem responder pelas dívidas da empresa, e instrumentos como o
mútuo conversível, mas nenhum investidor sério entra onde não há regra clara de
quem decide o quê. O terceiro momento é a crise societária, quando a ausência
de acordo de sócios e de regras de saída transforma uma divergência comum em um
processo que ninguém escolheu e que destrói valor dos dois lados.
Mesmo que você não pretenda abrir o capital
nunca, vale conhecer o mapa que o mercado usa. O regulamento do Novo Mercado da
B3, reformado em 2017 e em vigor desde 2018, elevou bastante a régua e passou a
exigir conselho de administração com mínimo de independência, comitê de
auditoria e políticas formais de gestão de riscos e de transações com partes relacionadas.
Você não precisa cumprir tudo aquilo, mas aquela lista é, na prática, o
checklist do que um comprador ou investidor maduro vai querer ver na sua
empresa.
A
régua
Governança não é despesa de empresa grande,
é investimento que reaparece no valor do seu negócio na hora em que ele é
avaliado. A empresa organizada vale mais e vende melhor, e a bagunçada paga o
desconto, sempre. A boa notícia é que governança não é tudo ou nada: ela se
adapta ao porte e ao momento da empresa, e começar cedo, com um acordo de
sócios decente, uma contabilidade fiel e regras claras de decisão, custa uma
fração do que custa arrumar a casa no susto, com o comprador já sentado na
mesa. Como eu costumo dizer: "é melhor a gente conversar sobre isso
enquanto está tudo bem, porque é exatamente quando ninguém acha que
precisa".
Autor:
Giovani Riboli Beirigo. Pós-graduado em Direito Empresarial, com
especialização em Direito Societário, Governança Corporativa e atividades de
M&A. Fundador do Baum, Beirigo & Milani Adv, empresário, palestrante e
professor.
Fonte:
https://www.migalhas.com.br/depeso/459022/governanca-nao-e-luxo-e-o-que-faz-uma-empresa-valer-mais