Crédito restrito, juros elevados e atividade fraca pressionam caixa das
empresas e elevam dívidas a R$ 204,8 bilhões
A inadimplência das empresas brasileiras alcançou um novo patamar
histórico em outubro de 2025. Ao todo, 8,7 milhões de companhias registraram ao menos um
compromisso financeiro em atraso, o maior volume desde o início da série
histórica em 2016. O montante total das dívidas somou R$ 204,8 bilhões,
evidenciando um cenário de forte deterioração financeira no setor produtivo.
Os dados mostram que o endividamento está
pulverizado: em média, cada empresa inadimplente acumulava 7,1 contas vencidas,
com dívida média de R$
23,6 mil. O valor médio por obrigação atrasada foi de
aproximadamente R$
3,3 mil, o que reforça o peso do passivo recorrente,
especialmente entre negócios de menor porte.
Micro e pequenas empresas
concentram maior fragilidade
A inadimplência tem impacto desproporcional
sobre micro, pequenas e
médias empresas, que respondem pela ampla maioria dos CNPJs
negativados. Esse grupo reúne mais de 8 milhões de empresas inadimplentes, concentrando cerca de R$
184,6 bilhões do total das dívidas.
Esses negócios são mais sensíveis à combinação
de juros elevados, menor oferta de crédito e desaceleração
da atividade econômica,
fatores que reduzem a capacidade de renegociação e comprometem o fluxo de
caixa. Empresas de maior porte também sentem os efeitos do ambiente adverso,
mas tendem a contar com maior estrutura financeira para atravessar períodos de
retração.
Crédito mais caro e economia
fraca limitam reação das empresas
A restrição no crédito tem sido um dos principais obstáculos para a
reorganização financeira das empresas. Com bancos mais cautelosos e spreads
elevados, muitas companhias encontram dificuldades para rolar dívidas ou
acessar capital de giro, o que amplia o risco de inadimplência.
Além disso, o ritmo mais fraco da atividade econômica reduz
receitas e margens, tornando o ajuste financeiro ainda mais complexo. Esse
cenário pressiona especialmente empresas que operam com baixo capital de
reserva e alta dependência de crédito de curto prazo.
Serviços e comércio lideram
inadimplência por setor
O setor de serviços concentrou a maior parcela das
empresas inadimplentes, seguido pelo comércio e pela indústria.
Juntos, esses segmentos refletem diretamente o impacto da desaceleração do
consumo e do custo elevado do crédito.
No recorte das dívidas negativadas, serviços
também aparecem na liderança, à frente de operações ligadas a bancos e cartões.
Regionalmente, o Sudeste concentra
o maior número de empresas no vermelho, enquanto Norte e Centro-Oeste registram
volumes menores, acompanhando a distribuição da atividade econômica no país.
Protestos crescem e aumentam
pressão sobre empresas
O agravamento do cenário também se reflete no
avanço dos protestos
de dívidas. Em 2025, os registros cresceram de forma
significativa, indicando maior uso desse instrumento para recuperação de
crédito. A expectativa é de intensificação no próximo ano, com a ampliação do
protesto eletrônico logo após o vencimento das obrigações.
Embora esse mecanismo possa acelerar a recuperação de valores, ele
também tende a aumentar a pressão sobre empresas já fragilizadas, elevando o
risco de exclusão financeira e dificultando o acesso a novas linhas de crédito.
Perspectivas seguem
desafiadoras
A combinação entre inadimplência elevada,
crédito restrito e incertezas econômicas sugere que o ambiente continuará
desafiador no curto prazo. Sem melhora consistente nas condições financeiras ou
redução relevante dos juros, a tendência é de manutenção de níveis elevados de
inadimplência, especialmente entre pequenos negócios.
O cenário reforça a importância de políticas de crédito mais
equilibradas, estratégias de renegociação eficientes e maior atenção à gestão
financeira como fatores essenciais para atravessar o atual ciclo econômico.
Fonte:
Contraponto