Liderança não começa no cargo. Começa na consciência do impacto que
escolhemos exercer.
Inicio aqui uma
série de três reflexões sobre modelos de liderança. Não para apontar certo ou
errado, mas para ampliar a consciência sobre as escolhas que fazemos ao
liderar.
Existe
uma pergunta que quase nunca fazemos antes de aceitar, ou mesmo buscar, uma
posição de liderança: Eu quero liderar . ou eu quero o cargo?
Ao longo da
carreira, crescemos ouvindo que o próximo passo natural é "virar líder". A
promoção chega como reconhecimento. Como validação. Como ascensão.
Às vezes escolhemos.
Às vezes somos escolhidos.
O salário aumenta.
O título muda.
O crachá ganha outra linha.
E, quase sem perceber, deixamos de ser
responsáveis apenas pelo nosso trabalho e passamos a influenciar o trabalho, a
energia e as decisões de outras pessoas.
Mas ocupar um cargo
não é o mesmo que compreender o que ele exige.
Talvez seja aí que
comece a confusão.
Subir na carreira é
movimento vertical. Liderar é movimento de responsabilidade.
O cargo amplia
autoridade formal. Liderança é a forma como escolhemos exercer esse papel.
E essa escolha,
muitas vezes, acontece antes da reflexão.
A reprodução silenciosa dos modelos que vivemos
Quando alguém assume
sua primeira posição de liderança, não começa do zero.
Começa carregando referências.
O modelo do chefe
que teve.
A cultura das empresas por onde passou.
As frases que ouviu sobre como um líder deve agir.
As recompensas que viu funcionar.
Os medos que aprendeu a evitar.
E, sem perceber, reproduz.
Alguns replicam o
líder que controla e centraliza, acreditando que precisa supervisionar cada detalhe
para garantir resultado.
Outros reproduzem o
modelo orientado exclusivamente por metas, no qual incentivos e bônus são
vistos como o principal motor da performance.
Poucos
param para perguntar:
Qual modelo estou
replicando? Eu realmente concordo com ele? Ele faz sentido para o contexto que
vivo hoje? Sustenta a cultura que desejo construir?
Lideramos a partir
de crenças. E crenças não examinadas se transformam em padrões automáticos.
O mito do cargo
Talvez um dos
maiores mitos corporativos seja o de que liderança é sinônimo de posição
hierárquica.
Mas a história conta
outra narrativa.
Ao
longo dos séculos, modelos de liderança surgiram como respostas a contextos
específicos.
Em tempos de guerra, a prioridade era obediência e rapidez.
Em
ambientes industriais, eficiência e padronização.
Em estruturas
orientadas por metas, estímulo por recompensa.
Cada modelo fez
sentido em seu tempo.
O problema não está
na existência desses modelos.
Está na aplicação
automática deles, sem consciência do contexto atual.
Quando
confundimos liderança com cargo, reforçamos uma lógica simples:
Quem
está acima decide.
Quem está abaixo
executa.
Essa lógica pode
funcionar em ambientes de alta previsibilidade.
Mas, em cenários
complexos, onde inovação, colaboração e pensamento crítico são necessários, ela
começa a mostrar limites.
E
é nesse ponto que a pergunta deixa de ser sobre posição e passa a ser sobre
intenção.
Influência é escolha
Liderar não é
coordenar tarefas.
É influenciar
comportamentos.
É moldar decisões.
É sustentar cultura.
É definir o que é valorizado
e o que é tolerado.
E isso pode ser feito a partir de
diferentes modelos.
Há líderes que
influenciam pelo controle.
Há líderes que influenciam pela recompensa.
Há líderes que influenciam pela construção de significado.
Nenhum modelo é
neutro.
Todos produzem efeitos.
A maturidade começa
quando deixamos de liderar por inércia e passamos a liderar por escolha
consciente.
A pergunta que antecede qualquer
modelo
Antes de discutir
qual modelo funciona melhor, talvez seja preciso voltar um passo.
Por que eu quero
liderar?
É reconhecimento?
É status?
É crescimento financeiro?
É desejo de impacto?
É vontade de construir algo maior que eu?
Não há respostas certas ou erradas.
Mas
há respostas conscientes e respostas automáticas.
Quando a liderança é
assumida apenas como consequência da ascensão na carreira, sem reflexão sobre o
modelo que sustenta nossas decisões, corremos o risco de perpetuar práticas que
talvez não estejam mais alinhadas com o mundo que estamos ajudando a construir.
De onde vem o jeito que você
lidera?
Talvez
essa seja a pergunta central.
Não para julgar.
Não para classificar.
Mas para compreender.
Porque liderança não
começa no organograma.
Começa no modelo mental.
E, se nunca paramos
para estudar os modelos que nos influenciaram, talvez estejamos apenas
repetindo o que vivemos e não escolhendo o que acreditamos.
Talvez liderar seja,
antes de tudo, escolher conscientemente como influenciar e entregar resultados.
Se for assim, a
pergunta deixa de ser sobre o cargo que você ocupa e passa a ser sobre o modelo
que você sustenta.
Que tipo de
liderança você melhor pode entregar?
A escolha é sua.
Autora: Ale
Rabin é, acima de tudo, humana. Mãe, ceramista e executiva com mais de 30 anos
de experiência em empresas como Loggi, Johnson & Johnson, Yahoo, Vivo e
UOL. Atuou em tecnologia, operações, experiência e sucesso do cliente,
integrando dados, pessoas e estratégia. Fundadora do TATUdoBEM e cofundadora do
Nós, também é conselheira TrendsInnovation, mentora e palestrante. Apaixonada
por gente, conecta múltiplos papéis com visão nexialista e multicultural,
unindo diversidade de ideias e culturas para gerar impacto real.