"Cada negócio que se
sustenta representa uma família com renda estável, uma comunidade com mais
empregos e uma economia local fortalecida"
O Brasil registrou a
abertura de 4,9 milhões de novos pequenos negócios - MEIs, microempresas e
empresas de pequeno porte - entre janeiro e dezembro de 2025. Um recorde
histórico. É um indicador que confirma o empreendedorismo como caminho concreto
de inserção econômica para milhões de brasileiros.
Ao mesmo tempo, em
números também de 2025, há uma estimativa de que haja 20 milhões de
empreendedores informais (donos de negócios sem CNPJ) no Brasil, segundo a
pesquisa do Sebrae denominada "Empreendedorismo Informal sob a ótica da PNAD
Contínua", que compreende dados da PNAD 2015/2024.
A inclusão produtiva
pode e deve ser encarada como uma ferramenta de superação da pobreza, e indo
adiante, além do emprego formal, o empreendedorismo é uma forma de inclusão do
indivíduo no sistema produtivo, na sociedade (o que talvez seja o mais
importante). O desafio é desenvolver e apoiar políticas públicas que atinjam
esses dois universos: o primeiro passo desses pequenos empreendedores
normalmente no mundo da informalidade e o seu desenvolvimento que implica
formalização (entrada no mundo formal), consolidação e crescimento
(permanência).
Os dados do IBGE de
2024 dimensionam a urgência dessa agenda: 48,9 milhões de brasileiros vivem em
situação de pobreza. O recorte racial revela disparidade estrutural: pessoas
pretas e pardas, que representam 56,8% da população, concentram 71,3% desse
contingente. Para parcela significativa dessas pessoas, empreender representa
não apenas opção de vida, mas alternativa viável de geração de renda diante de
barreiras históricas no mercado formal de trabalho.
É preciso, contudo,
reconhecer as tensões inerentes a esse processo. O empreendedorismo não
constitui, por si só, solução isolada para desigualdades estruturais. O mesmo
registro de microempreendedor que viabiliza autonomia pode, em condições
inadequadas, converter-se em precarização. A fronteira entre inclusão produtiva
efetiva e autoemprego vulnerável está no que ocorre após a formalização.
É por isso que o
Sebrae-SP participa como parceiro estratégico em programas governamentais de
inclusão produtiva que focam na formação, capacitação e apoio ao
empreendedorismo, mas também na construção da autonomia econômica dos
beneficiados.
O Sebrae-SP dando
tratamento ao passo evolutivo seguinte, também tem direcionado esforços não
apenas para a abertura de novos negócios, mas para a sustentabilidade dos
empreendimentos existentes. Isso significa capacitação em gestão financeira,
pois viabilidade comercial exige domínio de fluxo de caixa e precificação.
Significa facilitação de acesso a crédito em condições compatíveis com a
realidade do pequeno negócio, conexão com mercados consumidores, transformando
capacidade produtiva em faturamento efetivo e a valorização dos saberes locais
e culturais que constituem diferencial competitivo de empreendedores em
comunidades periféricas.
A formalização e a
boa gestão de um negócio são condições necessárias, mas não suficientes. O
apoio da gestão pública é igualmente fundamental para que a formalização se
converta em inclusão produtiva efetiva. A construção de um ambiente de negócios
saudável, com menos burocracia, e integrado às políticas locais que favoreçam o
pequeno negócio, condiciona a capacidade dos empreendedores de se manterem e
crescerem. Nesse sentido, o Sebrae-SP atua em parceria com prefeituras e
organizações da sociedade civil (OSCs) por meio de iniciativas como o "Cidade
Empreendedora", que, dentre diversas frentes, apoia a criação desse ambiente
favorável à inclusão produtiva.
A experiência
acumulada indica que o empreendedorismo funciona como vetor de mobilidade
quando três condições convergem: capacitação técnica adequada à realidade do
pequeno negócio; acesso a capital com prazo e custos compatíveis com a
realidade dos pequenos negócios; e ambiente regulatório que crie incentivos e
não penalize quem está iniciando. Avanços como o Simples Nacional foram
significativos, mas persistem obstáculos burocráticos que consomem recursos
escassos do empreendedor.
O fortalecimento do
empreendedorismo como política de inclusão produtiva exige atuação coordenada
entre poder público, setor privado e organizações da sociedade civil. Ao
Sebrae-SP cabe contribuir com o que sabe fazer: capacitação, orientação e
conexão com oportunidades. A outros atores cabem políticas de crédito,
desburocratização e proteção social que complementem esse esforço.
Cada negócio que se
sustenta representa uma família com renda estável, uma comunidade com mais
empregos e uma economia local fortalecida. Esse é o resultado que perseguimos e
que justifica tratar o empreendedorismo como engrenagem estratégica do
desenvolvimento social brasileiro.
Autor: Nelson Hervey Costa. Diretor-superintendente do
Sebrae-SP.
Fonte:https://dcomercio.com.br/publicacao/s/inclusao-produtiva-e-empreendedorismo-os-desafios-da-entrada-e-da-permanencia?utm_medium=email&utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__12_de_fevereiro_de_2026&utm_source=RD+Station