A discussão sobre
a IA contratual ainda está presa no momento da revisão. Mas é no
pós-assinatura, onde a maior parte do prejuízo acontece, que os agentes de IA
estão começando a mudar o jogo.
Trabalho com contratos há mais de dez anos,
tenho 10 só de Contraktor. E posso afirmar, com tranquilidade, que o maior
risco contratual nas empresas brasileiras não nasce no momento da redação.
Nasce no dia seguinte à assinatura.
Reajustes anuais que ninguém aplica.
Renovações automáticas que disparam sem aviso. Multas de saída que prescrevem
porque a equipe não enxergou o prazo. Aditivos que ficam três meses presos em
uma caixa de entrada. Cada um desses eventos parece pequeno isoladamente.
Somados, são a maior linha de perda silenciosa do balanço.
O setor jurídico ainda trata isso como
problema de organização. Comprou pasta, planilha, drive compartilhado. Não
funciona em escala. Não porque a planilha seja ruim, porque o problema não é de
armazenamento, é de leitura contínua. Contrato vivo precisa ser lido,
monitorado e cruzado o tempo todo. E nenhum time jurídico de PME tem braço para
fazer isso manualmente.
A discussão sobre IA está parada no
lugar errado
A conversa pública sobre inteligência
artificial em contratos ainda está presa no momento da revisão, antes da
assinatura. É um caso de uso importante, mas é o menos representativo do volume
real de trabalho.
A revisão acontece uma vez por contrato. A
gestão pós-assinatura acontece todos os dias, por anos, em toda a base. É lá
que está o volume. É lá que está o prejuízo. E é lá que a infraestrutura de
agentes de IA começa, de fato, a mudar o jogo.
Por que o problema cresceu agora
A complexidade cresceu mais rápido do que a
estrutura. Uma PME em ritmo de expansão fecha trezentos contratos por
trimestre. Multiplica por fornecedores, clientes, locações, prestações de
serviço, parcerias, aditivos. Em dezoito meses, a empresa já tem milhares de
obrigações vivas, e nenhum método para mapeá-las.
A pergunta que toda diretoria faz para o
jurídico hoje não é "esse contrato está bem redigido". É
"quantos contratos vencem nos próximos noventa dias". E quase ninguém
consegue responder com precisão.
Esse vácuo entre o que a empresa precisa
saber e o que o jurídico consegue entregar é onde mora o custo do esquecimento.
A leitura humana não escala. A
leitura por agentes, sim
O que mudou nos últimos anos não é a
natureza do problema. É a tecnologia capaz de resolvê-lo. Modelos de linguagem
treinados em domínio jurídico conseguem, hoje, ler um contrato, extrair valor,
prazo, multa, objeto e partes, e marcar pontos de atenção com precisão técnica.
Mas leitura é só o começo. O movimento mais
relevante para a gestão contratual é a entrada dos agentes de IA. Um agente não
é uma função pontual. É uma camada de software que opera continuamente: lê,
monitora, sinaliza, cruza informações, dispara alertas e aprende com o
histórico da empresa.
Aplicado ao ciclo contratual, um agente bem
desenhado faz o que nenhum analista humano consegue manter no longo prazo: olha
para a base inteira de contratos, todos os dias, e identifica o que precisa de
atenção.
A infraestrutura por trás dos agentes
Para que os agentes funcionem em escala,
três pilares precisam estar no lugar.
O primeiro é a gestão dos processos
pré-assinatura, fluxos configuráveis, com responsáveis, prazos e regras
parametrizadas por tipo de contrato. Quem solicita, quem aprova, quem assina,
em que ordem.
O segundo é a gestão documental ativa
pós-assinatura. Não como repositório, mas como carteira. Cada contrato vira um
ativo monitorado, com valor, vencimento, reajuste previsto e obrigação
rastreada.
O terceiro é a camada de governança e
inteligência. É onde os agentes de IA operam. Lendo, conectando, sinalizando,
aprendendo com a base.
Sem os três, qualquer agente vira
demonstração de feira. Com os três, vira infraestrutura.
O que isso muda na rotina do jurídico
Não é substituição do advogado. É a remoção
do trabalho que nunca deveria ter sido feito por gente.
Acompanhar manualmente o vencimento de
quatrocentos contratos não é trabalho jurídico. É vigilância operacional.
Quando a infraestrutura de agentes assume essa camada, o jurídico volta a fazer
o que justifica a sua existência: decidir, negociar, posicionar a empresa
diante do risco.
E o custo do esquecimento deixa de ser
linha invisível no balanço.
Por onde começar
Para o gestor jurídico, financeiro ou
administrativo lendo este artigo, a pergunta prática é simples. Quantos
contratos da sua empresa venceram nos últimos noventa dias sem renovação ativa?
Quantos reajustes deixaram de ser aplicados no prazo? Quantos prestadores estão
operando fora da vigência original?
Se você não tem a resposta imediata, o
problema já está instalado. E o caminho não é contratar mais gente para olhar a
planilha. É instalar uma camada que olhe por você, o tempo todo, sem cansar.
Esse movimento está começando agora no
Brasil. Faz parte do que estamos construindo e será apresentado ao mercado.
Mas, mais importante do que qualquer lançamento, é o reconhecimento de uma
virada estrutural: a discussão sobre a IA contratual precisa sair da revisão e
ir para onde o prejuízo realmente acontece.
Quem não enxergar essa virada a tempo vai
continuar pagando o custo do esquecimento sem nem saber que está pagando.
Autor:
Henrique Flôres. Cofundador da Contraktor. Formado em Direito e Sistemas para
Internet, especialista em Administração e com MBA em Gestão Estratégica, IA e
Marketing.
Fonte:
https://www.migalhas.com.br/depeso/457219/agentes-de-ia-para-contratos-problema-nao-esta-na-revisao-mas-depois